Quadrinhos nacionais – visão geral

HQs-nacionais

Quando se fala em quadrinho nacional, os primeiros nomes que vêm à cabeça das pessoas são Maurício de Sousa e Ziraldo. Eles são os mais famosos, aqueles cujas obras fizeram parte da infância de gerações de brasileiros. Entretanto, a nossa produção de HQs vai muito além desses dois grandes nomes. De mangás, que são menos conhecidos pelo público geral então, nem se fala.

Desde 1869, com Nhô Quim, criação de Ângelo Agostini, as histórias em quadrinhos existem no Brasil. Nhô Quim era uma charge, história de sátira política e social publicada em jornal. A primeira revista em quadrinhos brasileira foi O Tico Tico, lançada em 1905. Nas décadas de 40 e 50, o que mais se produzia aqui era charge. Histórias infantis e de super-heróis eram importadas principalmente dos Estados Unidos.

Nos anos 60 surgiram os primeiros super-heróis tupiniquins, Capitão 7, Escorpião e Raio Negro, todos claramente inspirados nas HQs americanas. Depois de 1964, a ditadura perseguiu e censurou publicações de conteúdo erótico ou político. Isto, somado ao grande sucesso da Turma da Mônica, fez com que por um bom tempo o público de quadrinhos em nosso país ficasse restrito quase que somente a crianças. Havia, no máximo, um pequeno grupo de fãs dos super-heróis das HQs norte-americanas que consumia Batman, Homem-Aranha e vários outros. No entanto, essa realidade começou a mudar aos poucos. No final dos anos 80, graphic novels de peso como A Piada Mortal foram lançadas no Brasil. Nos anos 90, com a explosão de popularidade de animes como Dragon Ball e Cavaleiros do Zodíaco, os mangás ganharam as bancas brasileiras atraindo pré adolescentes e adolescentes. As editoras não divulgam dados sobre venda, mas em reportagem do jornal O Globo de 11/10/2012, foi revelado que a Turma da Mônica Jovem conseguira chegar a uma média de 300 mil exemplares comercializados por mês – um número alto considerando o quão pouco se lê no Brasil.

A popularização da internet por um lado prejudicou as vendas de mídias impressas, mas por outro abriu oportunidades para novos talentos. Bons artistas foram descobertos ou se tornaram mais conhecidos através da publicação de webcomics, galerias virtuais e participação em mídias sociais. Mais recentemente, sites de financiamento coletivo como o Catarse e o Patreon se tornaram canais para quadrinistas tentarem publicar seus trabalhos de forma independente.

Aqui o site Heróis no Papel surgiu como uma opção para publicação e divulgação de quadrinhos. Aqui, o autor pode disponibilizar suas histórias para leitura em uma interface bacana, que permite aos leitores postarem comentários e avaliarem as obras. As histórias também são divulgadas nas redes sociais, inclusive, em alguns casos, com impulsionamento de publicação. O site conta com um sistema de doações bastante flexível e também faz a intermediação na venda de HQs impressas. O uso do site para publicação e divulgação do trabalho é gratuita, basta se cadastrar. Somente quando o autor tem algum ganho através da HnP seja por doação ou venda de impressos é que se cobra uma taxa para manutenção. Se você é um quadrinista batalhando para ter sua história conhecida, este é o canal. Já existe no site uma boa lista de HQs de bons autores para leitura online gratuita, como: Blue Horizon, Umeko Wars, Virgin Valkyrie, Jonnhy, Matsuro, Friendzone, Kokoro no Ken, Interfectorem e Todo mundo ama odiar o pequeno Liefeld.

Ainda não somos um paraíso de quadrinhos e mangás aqui no Brasil, mas já melhoramos muito. Quer conhecer um pouco mais da produção nacional? Vamos ver algumas dicas a seguir.

       Combo Rangers, de Fábio Yabu: Criado em 1998 inicialmente como webcomic, o Combo Rangers é claramente inspirado em séries como Changeman e Power Rangers. Ganhador do prêmio HQ Mix, foi para a mídia impressa pelas editoras JBC e Panini entre os anos 2000 e 2004. Com traços simples, limpos e expressivos e muito humor, as aventuras de Fox, Tati, Lisa, Kenji e Kiko fizeram sucesso na internet. É a dica para quem gosta de comédia e séries Super Sentai, e o melhor é que as histórias antigas voltaram a ficar disponíveis no site. Dá para ler de graça e, se gostar, procurar as revistas impressas.

       Quadrinhos A2, de Cristina Eiko e Paulo Crumbim: situações do dia a dia são retratadas com altas doses de humor, um tanto de fantasia à lá Scott Pilgrim e arte bacana. Os autores sabem explorar o ridículo das pequenas armadilhas do cotidiano, e a graça vem tanto das situações em si quanto da forma como são desenhadas. Cristina e Paulo são profissionais de ilustração e animação e foram convidados para participar do projeto Graphic MSP – a série de graphic novels em que diferentes artistas fazem releituras dos personagens de Maurício de Sousa. Por aí já dá para ver que são artistas de qualidade. Uma boa para quem gosta de quadrinhos tipo cartum.

       Pátria Armada, de Klebs de Moura e Silva Junior: no Brasil, em uma realidade alternativa, o golpe de 1964 não dá certo e inicia-se uma guerra civil que se arrasta por décadas. A história de Pátria Armada acompanha um grupo de jovens com poderes especiais nesse ambiente de conflitos e conspiração. Uma premissa interessante que promete apresentar visões alternativas de diferentes regiões do Brasil no mínimo curiosas. Klebs Junior é quadrinista experiente, que já trabalhou para grandes editoras como Marvel e DC. Consequentemente, seu traço é puro estilo comics norte-americano. Se você gosta de super-heróis e se interessa por histórias de guerra e realidade alternativa, esta é a sua praia.

       Vidas Imperfeitas, de Mariana Cagnin: esta é para quem gosta de histórias mais pé no chão, contadas com sensibilidade. Vidas Imperfeitas conta a história de Juno, uma adolescente que enfrenta problemas dentro e fora de casa. O traço de Mariana é delicado, tendendo mais a um estilo realista. A obra está completa em 6 volumes, e ainda tem side stories, tudo disponível para download no blog da autora. Você pode comprar a versão impressa através da editora HQM.

       Mangás online da Editora Jambô: quem gosta de RPG provavelmente já conhece essa ótima opção, e quem não conhece precisa ao menos dar uma espiada. Afinal, são obras de qualidade que você pode ler de graça! Para os que preferem humor tem as divertidas tirinhas de Sir Holland, escritas e desenhadas por Zambi. Já para os que gostam de uma boa fantasia medieval, há mais opções. O único senão é que são mangás em andamento, então depois de ler os capítulos disponíveis você terá que esperar por atualizações. LEDD, de J.M. Trevisan e Lobo Borges, é o que tem mais capítulos publicados. LEDD é uma fantasia medieval cuja história gira em torno das aventuras de um garoto sem memória entre magos, guerreiros e monstros. Excelente para quem gosta do gênero. Depois de LEDD, tem 20 Deuses de Marcelo Cassaro e Rafael Françoi, com três capítulos disponíveis até agora. Um bom motivo para arriscar uma olhada nessa série é Marcelo Cassaro, que foi um dos criadores do ótimo Holy Avenger. Aliás, o leitor mais jovem que nunca ouviu falar desse mangá, deve procurar conhecer a obra. Para quem não sabe, Holy Avenger ganhou o prêmio HQ Mix por duas vezes e conseguiu o sexto lugar no Prêmio Internacional de Mangá, realizado no Japão.

       Apagão: Cidade sem Lei/Luz, de Raphael Fernandes e Camaleão. A HQ gira em torno do mestre de capoeira Apoema e seu grupo, os Macados Urbanos que tentam sobreviver e reconstruir uma São Paulo que virou terra de ninguém após um blecaute. É um lançamento da Editora Draco.

       Henshin Mangá da Editora JBC: esta é para quem tem curiosidade em conhecer iniciantes promissores. Trata-se de uma antologia com os cinco vencedores do Brazil Manga Awards, concurso realizado pela editora JBC em 2014. Eles são: Quack, de Kaji Pato, Crishno: o Escolhido, de Lielson Zeni e Francis Ortolan, (Re)Fábula, de Ivys Danillo e Breno Fonseca, Entre Monstros e Deuses, de Pedro Leonelli e Dharilya Rodrigues, e Starmind, de Daniel Ferreira e Ricardo Tokumoto. De um modo geral, todas as cinco histórias apresentam premissas interessantes e arte em um bom nível. O leitor que é muito fechado em suas preferências pode achar que não vale a pena comprar a revista, já que os estilos são bem diferentes entre si. Entretanto, quem está disposto a arriscar pode, quem sabe, encontrar o seu novo quadrinista preferido ou até mesmo se sentir inspirado a fazer o seu próprio mangá. Afinal, o Brazil Manga Awards é anual, você pode muito bem se inscrever no ano que vem ou no seguinte…

Essas dicas são apenas a ponta do iceberg, claro. Além dos autores mencionados aqui há muita gente talentosa batalhando por – e alguns, conseguindo – reconhecimento. Se você é aspirante a quadrinista, persista na luta pois o cenário está bem mais favorável do que antes embora não pareça. Se você é um apreciador de quadrinhos e mangás, procure incentivar a produção nacional. Se gostar de uma webcomic comente, compartilhe. Procure apoiar os autores como puder. As editoras e os quadrinistas precisam saber que existe um bom público para a produção nacional.

Uma Marvel, DC ou Shonem Jump brasileiras?

Será que, com esses novos modelos de divulgação pela internet, seria possível vermos algo como uma Marvel ou DC Brasileiras algum dia? Ou grandes publicações de Mangás como fazem a Shonen Jump? Difícil afirmar, e ainda estamos muito longe disso, mas a internet ao menos torna possível o vislumbre dessa ideia no futuro.

História dos quadrinhos no Brasil: http://www.brasilcultura.com.br/artes-plasticas/historia-em-quadrinhos-no-brasil/
Heróis no Papel: http://heroisnopapel.com/
Quadrinhos A2: http://www.quadrinhosa2.com/search/label/Pandacon
Pátria Armada: http://patriaarmada.com.br/historia.html
Vidas Imperfeitas: http://vidasimperfeitashq.blogspot.com.br/p/edicoes.html
Mangás online da Editora Jambô: http://jamboeditora.com.br/mangas-online/
Brazil Manga Awards: http://brazilmangaawards.com.br/
Henshin Manga: http://henshin.uol.com.br/2014/08/15/henshin-manga/
Primeiros mangás e animes no Brasil:
http://mundoestranho.abril.com.br/materia/quando-surgiram-os-primeiros-mangas-e-animes
Reportagem do jornal O Globo: http://oglobo.globo.com/cultura/quadrinhos-em-profusao-6379298
Matéria “O brasileiro está lendo menos”: http://abibliotecaderaquel.blogfolha.uol.com.br/2012/03/28/o-brasileiro-esta-lendo-menos/

The following two tabs change content below.
  • Ruan Victor

    gostei da ideia do site